domingo, abril 23, 2006


Subtilmente, o luar foi surgindo e iluminando aquela noite enigmática e escura, que até aí era apenas pano escuro cobrindo aquele mundo confuso.
As árvores corporeas e humanizadas pelo olhar humano (pois os humanos sofrem daquela mania de querer ver algo humano em tudo...), lançavam os seus ramos por entre caminhos de ninguém, onde a passagem era de difícil percepção e os quais nunca foram pisados, pois nunca ninguém ousou sequer dar um passo, um simples passo.
A luz calma caminhava no interior daquele esférico e labirintico mundo, descobrindo sentimentos nunca antes descobertos, partindo medos existentes desde tempos incertos (os quais a memória recussava-se a desvendar) e acalmando a persistência da loucura, que não se escondia.
Marcava os caminhos de luz...pois o luar encontrou a noite com um simples olhar.

segunda-feira, abril 17, 2006

Für mein mondschein


Ela dizia adeus ficando. Ele olhava-a por dentro. Abraçados, o tempo injusto nunca dava tempo e o espaço habitado desvanecia-se, sobrando apenas os sentimentos, que elevavam-se e flutuavam, criando uma melodia silenciosa por movimentos, envolvendo-os em palavras puras.
Ela dizia adeus ficando. Ele via-a por dentro...Abraçados, tocavam no interior de cada um e permaneciam e pertenciam e davam.
E aquele adeus demorava...e os dois iam ficando. As mãos enterlaçavam-se...pressagiando que nunca se iriam desenlaçar...
Disseram adeus ficando.
As mãos desenlaçadas ficaram com a sensação, com o toque. O olhar ficou com a imagem. E o corpo permaneceu abraçado.
Os corpos afastaram-se com passos lentamente flutuantes, mas a melodia silenciosa continuava a envolve-los.

sexta-feira, abril 14, 2006

Será por isso o vazio?


"O objectivo profundo do artista é dar mais do que aquilo que tem."
Paul Valéry
Será por isso a insatisfação permanente, incomodativa, libertadora de raiva e de choro, quase asfixiante, quase de queda do sonho para o solo? Será por isso a angústia e ansiedade dentro do peito quando os olhos não vêem o que a alma desejara ver? Será por isso que primeiramente e momentaneamente se sinta amor e posteriormente todo aquele amor transforma-se num ódio pessoal controlável indesejavelmente/desejavelmente cristalino? Será por isso a insegurança? Será por isso a luta e a busca incessante por algo mais? Pela perfeição? (aquela utopia...a utopia das utopias). Será por isso a procura nos outros de algo mais para completar a alma, a ideia, a pessoa...sugando-os? Não sei.

domingo, abril 09, 2006



Já nada havia a dizer, a proferir, a tentar. Hoje o silêncio prolonga-se, invade e hipnotiza a minha mente. Não me deixa ver...mas sinto. Não faz sentido, nada disto faz sentido. Mas continua a subir e a deixar para trás restos de mim...quero fugir deste silêncio, antes que me faça desaparecer, me transforme em espuma.
Devolvo os sentidos às suas origens e procuro luz no interior de um corpo letárgico, para que o ocupe posteriormente... Mas as paredes começam a cair e não me lembro de entrar aqui. Estranha sensação de ver cair, de sentir cair e não ouvir a queda.
Aquele silêncio parece saber queimar a alma tumultosa e arrastar o frio dos meus olhos...Tira-me o silêncio e o frio e o fraco! Estou cansada de ver escorrer o silêncio nestas paredes de ruína e neste templo de tempo perdido, que não quer desistir de existir.
E eu danço enquanto desapareço...na melodia mordaz deste doloroso silêncio, neste espaço sem espaço, neste templo de ninguém, nesta morte de aparências, neste local de restos de todos mas de ninguém.

quarta-feira, abril 05, 2006

Era apenas um pano

O cansaço acumulava-se num local inesperado. Não era o corpo, nem sequer a mente. Os filamentos daquele pano caiam...iam rompendo à medida que o tempo passava. Talvez estivesse também cansado de estar colocado num local tão alto. Qual seria a razão de o terem colocado tão alto?
Os espaços pareciam estranhamente distantes...tal como aquele pano. Os espaços imanavam um terror estranho...tal como aquele pano.
Ia-se tornando farrapo...mas continuava distante, continuava naquele local alto onde o colocaram, sem saber porquê.
Era apenas um pano violeta, acinzentado pelo tempo.

domingo, abril 02, 2006


Tudo tremia. E ela olhava, de olhos quase fechados, para os arrastamentos de manchas encobertas por pontos de luzes fragmentadas por linhas. Estava tão cansada. Não lhe doía o corpo, ao contrário do habitual. Doía-lhe, sim, a mente, pesava-lhe a cabeça e por consequência os olhos fechavam-se naturalmente e o equilibrio ia esvanecendo-se em si mesmo.
O abraço reconfortante e calmante, que aquele peito lhe oferecia, funcionava como um repouso momentâneo. Os olhos deixavam-se fechar por instantes e a mente deixava-se invadir por um vazio silencioso, que a embalava naquele ombro.
A mão escrevia...a mente nada fazia. Apenas os olhos seguiam o movimento acelarado daquela mão irrequieta. Já cansada, deixava-se levar. Ela apenas se deixava levar